15 janeiro 2007


A vingança fria a que me submeteste. A vingança dolorosa de me fazeres passar exactamente pela mesma ordem, medida e tamanho à solidão, abandono e traição a que te submeti transformou-me o coração num bloco de gelo que me faz obrigatoriamente flutuar de pernas para o ar numa corrente marítima gelada, arrefecendo-me o coração tropical até eu não ser diferente daquilo em que me alterei. Não me abandonas. Não me deixas. Mas não voltas. E eu não te deixo. Não te abandono. E não me respeito. E não gosto de mim.

01.01.2007

14 janeiro 2007



Hoje se pudesse entrava dentro de ti e abria-te uma tampa que vazasse essa tristeza que tens tão dentro do teu âmago e das tuas mãos. Hoje se pudesse entrava dentro de ti e deixava-me afundar no teu sofrimento que todos os dias te tira o sorriso e te deixa afundar mais um milímetro nesse mar de abandono. Tu própria não te deixas submergir de uma vez por todas. Nem te deixas pôr a salvo. Andas meio debaixo de água até o ar se te exterminar por completo em todas as células do teu ser para voltares a vir ao de cima e encheres os pulmões de ar. Se pudesse tirava-te todo o peso de cima. E carregava-o ao teu lado. Hoje caminho-te sobre as tuas pegadas na esperança de te aliviar. De te confortar. Mas não o consigo fazer. O teu coração, pobre e tão isolado deixa-se ficar nesse deserto escuro, completamente abandonado, porque é mais fácil sofrer que lutar.

1.01.2007

13 janeiro 2007


Ainda guardei espaço no meu coração para ti. Mas acabo por concluir que mesmo que te perdoasse os erros do passado e tu me desculpasses os pecados cometidos mais atrás no tempo decorrido entretanto, nada se iria alterar, porque apenas restaria este buraco gigante que nos preenche naquilo que somos um para o outro. Mas agora que te vejo mais débil e solitário tenho pena dessa lacuna no meu coração ficar assim, por preencher. E tu ficas assim, sem me conhecer realmente quem sou e de onde venho, e como sou e porque assim sou. Não me conheces. E eu não te conheço. Tenho espaço no meu coração para ti. Mas não te quero pedir que entres.

4.01.2007

11 janeiro 2007


UM FIM

06 janeiro 2007


A morte vem lentamente interpor-se entre nós. E as palavras que nunca dissemos começam a escassear na boca de cada um de nós. E os gestos de carinho que nunca tivemos um para o outro começam a fugir-nos dos nós dos dedos por não reconhecerem na outra pessoa o fonte de carinho a que está habituado. Mas agora que a morte se começa a interpor entre nós estranho pequenos gestos que até aqui não te tinha conhecido ou apenas não te tinha reparado. E agora que a morte te começa a tirar o fôlego, tira-me a mim quem nunca tive. Na realidade não me tira ninguém que eu não soubesse já fora da minha vida. Mas atormenta-me saber-te já fora dela quando nunca entraste nela, sequer, quanto mais profundamente. É como se a morte, que agora se começa a interpor entre nós, e as palavras e os gestos que nunca dissemos ou fizemos agora diminuíssem a distancia entre as mãos um do outro até restar apenas um vidro que foi perdendo a espessura, a cor e quase que te sinto através dele. Mas tantos anos de afastamento, de sorrisos mascarados, de dores transparentes mas sentidas, se desvanecem agora que a morte se começa a interpor entre nós?

28.12.2006

05 janeiro 2007


Hoje, se calhar só hoje. Vou crescer e ser adulta. Não te vou cobrar o resto da vida o que não partilhámos, o que não foi nosso. A ternura que perdemos, deitada ao mar, no espaço que restava entre nós. As lágrimas que chorei vou deitá-las à terra de uma vez por todas. Pode ser que fortifiquem e que façam crescer uma árvore. Com raízes daquelas que nunca nos uniram. Não vale a pena continuar a magoar-te e querer-te atingir pelo mal que me fizeste, coisa que nunca reconheceste como tal. O meu mal nem sempre será em igualdade, de tamanho, para ti uma maldade.
Hoje vou-me deixar ficar para trás.

28.12.2006

04 janeiro 2007


Quero-te de volta à minha vida. Não a ti que já tive. Não a ti que já amei. Não a ti que já te chorei. Não aqueles de quem já me despedi. Quero sim de novo o Amor. Aquele que me despedaça a vida, a alma, o coração, e me faz respirar e me faz sentir viva. E quando posso ser feliz. Feliz, não meia feliz, não meia contente, não desinfeliz. Não algo que fica no meio, mas quero os extremos, quero-te de volta à minha vida, de uma vez, só de uma assentada. Faz-me sentir viva, rasga-me a carne, a vida e a alma, mas faz-me, dá-me, sente-me, porque também vou amar, e vou amar tudo no todo, sem pensar, como já fiz no passado, não um amor antigo. Um amor novo, um a quem me posso entregar toda de novo. E reerguer-me ao seu lado, deitar-me abaixo e voltar a fazer-me as vezes necessárias, mas fazer-me uma nova mulher. Ao lado de um novo amor. De um novo, que não me olhe para trás, para os passados obscuros e para os iluminados, que me sente e me quer apenas pelo que sou e pelo que posso vir a ser ao seu lado. Não me sonha como uma extensão daquilo que quer, mas aceita-me como uma extensão que se constrói todos os dias à medida do que ambos queremos. E o que não temos força para aceitar, que tenhamos força para transformar em algo que faz parte de nós, apenas. Porque não mudamos o que amamos. Amamos pelo que já era. E não amamos um sonho projectado por nós.

Ou será que o Amor não passa disso mesmo?

23.12.2006

31 dezembro 2006


Eu hoje só penso em dançar, até à exaustão, até o teu sexo me sentir tão por dentro como por fora de ti. Apetece-me beijar a tua boca, a tua língua, o céu da tua boca, cada poro e tratar por tu cada pêlo da tua barba. Deixa-me fazer um mapa desconhecido do teu pescoço, da tua maçã de Adão, e senti-lo milímetro a milímetro com a minha língua. É ela, a minha língua, que te vai saber mais que as tuas mãos. Tocar-te os ouvidos com a ponta das unhas, leves e suaves, pintadas de paixão, e reconhecer o tom com que me ouves. Vamos fazer uma estória de paixão esta noite. E sentir o tamanho do grito ofegante, de ambos, na boca um do outro.

23.12.2006

30 dezembro 2006


Levo o tempo a prometer que não te voltarei a ligar. Mas volto sempre. Como é claro, sempre que te ligo não te pergunto o que quero saber, nem te forço a dizer o que não quero ouvir. Mas hoje enchi-me de coragem e por isso aqui estou eu. Como é óbvio não te convido para irmos tomar um café. Para mim seria um chá, mas não o faço. Telefonei-te, só e apenas, pois sei bem das minhas limitações e jamais poderia partilhar do mesmo espaço que tu. Sei bem como esse teu sorriso charmoso sempre me desarmou em todas as situações, por mais decidida que eu esteja em te resistir e em te exterminar da minha alma e na minha vida. Falas-me, invariavelmente, nos teus sonhos quebrados, nos teus voos picados terminados abruptamente, mas hoje é sobre mim que falaremos. Quero que me digas, sem dúvidas, sem périplos, sem silêncios, de uma vez e só de uma assentada, o que eu fui para ti. Hoje alguém me disse que este era o Natal do seu abandono. Pois para que não seja também o meu, diz-me de uma vez por todas, e com todas as letras, sem os teus silêncios dúbios, o que eu fui na tua vida. Nem te tenho por perto para me encheres do teu olhar, desse teu azul que agora está mais claro, mais azul céu livre, e, de uma vez por todas corta-me as asas e enterra-me ou dá-mas de volta e deixa-me voar para longe sem ressentimentos, sem medos do que possa ter abandonado. Enches-me a alma de esperança quando me dizes que me recordas com carinho todos os minutos que partilhamos a pele. Que foram apenas minutos. Nada mais que isso. E quem sabe um dia a vida nos faz voltar a cruzar. Mas não me dizes nunca que foi também um amor. Eu sei que não fui. Tu sabes que não fui. Dizes-me que nunca me mentiste. Nunca a tua boca proferiu uma mentira para mim. Isso não me serve de consolo, digo-te eu, em tantas alturas preferia-me sentir enganada, com palavras de amor, sentimentos que me afundassem, sabendo que me mentias, mas podendo fingir que era amada. Mas não. Sempre soube no fundo, não pela tua boca, apenas pela minha sensação, que era passageira. Talvez a vida nos faça cruzar, lá mais à frente, quando formos mais livres. Sabemos que a vida não nos voltará a cruzar. Sabemos ambos que as vezes que passamos ao lado um do outro foram propositadamente. Porque assim obriguei a vida, e tu a deixaste seguir-me por escassas vezes. Agora, ficamos apenas na lembrança um do outro, dizes-me tu, e penso eu, que treta. Esqueceste-me. Dizes que não. Que me trazes guardada no teu coração como a única mulher que te traz apenas boas recordações. No silêncio sentes as minhas lágrimas a cair. E eu sinto que vais fugir. Nunca consegui tocar nesse ponto tão teu. Era apenas aí que eu me precisava de me saber, no passado, pelo menos uma vez. Que te marquei. Que te fui importante. Sentir. Não apenas saber. Palavras vãs. De pena? Não, afirmas tu. Vou fazer de conta que creio em ti de coração. Mas ambos sabemos que não. A vida fez-me desconfiada. E não creio nas pessoas e nos sentimentos que nutrem por mim. Não me vejo valorosa o suficiente para me amarem. Mas apenas tu e eu o sabemos. Poucos partilham do meu sorriso fácil e da minha verdade. Agora despeço-me. Quase na mesma. Com a mesma, quase, sensação de vazio, de necessitar de fumar um cigarro urgentemente, depois de não te poder sorver o ar, o cheiro e a vida. Precisava apenas de dar uma passa num cigarro de uma marca qualquer desde que forte e acender-me a alma como farol para que alguém me encontre aqui magoada por entre este mar calmo, mas tão demasiado escuro. Não me valeu de quase nada. Não me esclareceste. Tu nunca me esclareces. Tu nunca te dás. Mas pronto. Já tenho mais um motivo para chorar. Mas vou sorrir para que não me sintas triste. Só por dentro sabemos ambos que choro. No mar. Adeus. Esperamos que a vida nos faça cruzar?

22.12.2006

29 dezembro 2006


Apetece-me fazer amor. Apetece-me muito. Hoje não me apetece dar uma rapidinha. Não me apetece ter uma sessão de sexo despreocupado, nem tão pouco desconhecido, com o objectivo de obter prazer físico simples. Hoje queria ter a minha pele na do meu amor, descobrir-lhe os sabores, os recantos, e atingir o auge do clímax quando lhe descobrir o sítio onde ele guarda o seu cheiro. E banhar-me ali, no local onde ele segrega o mais puro de si. Emergir-me no seu odor e transformar na sua pele, e circular por ali, descobrindo todos os seus pontos G´s, fazendo o seu prazer arrastar-se de forma orgásmica e totalmente irresponsável até me diluir nele. E ser dele. Apenas dele. Tão dele que ele não saberia já onde eu me começo e onde ele se acaba. Tocar-me quando toca na sua pele. Fazer parte dele de tal forma que me vê quando fecha os olhos porque estou por dentro das suas pálpebras. Tocar-me quando põe a mão debaixo do rosto, lavar-me o rosto quando tira atira água à cara de manhã. Ver-me reflectida no espelho enquanto escova os dentes. E quando eu acordar, intumescida e abrasadora, porque a manhã começa sempre cheia de amor, quero que tu vás atrás de mim, e me deixes seguir-te o corpo e o cheiro e fazer amor contigo ainda a dormir, porque me sabes e me conheces como tua no teu corpo.

Hoje apetece-me fazer amor.

Hoje apetece-me amar.

23.12.2006

28 dezembro 2006

Esta é mesmo a última carta que te escrevo. Esta é mesmo a definitiva. Aquela com que encerro este ciclo de dores, utopias, alegrias fingidas e de pássaros de asas cortadas. É com esta que te encerro o cheiro numa caixa no mais fundo do meu sentimento olfactivo e com que criarei uma armadura anti cheiros, para que não me voltes a tomar de assalto como se de uma princesa encerrada na mais alta torre eu me tratasse e apenas o teu cheiro me conseguisse salvar. Nunca me salvaste. Apenas me encerraste ainda mais fundo nos pavores do mundo que todos temos. E tu, mais que ninguém, terias a obrigação de me saberes e reconhecer, depois de anos, aí longe, enclausurado por trás desses muros, ouvindo-me e reconhecendo-me no cheiro do papel branco sem linhas e nas letras sempre azuis e tortas dos t´s dobrados. Soubeste-me ainda mais tua quando os envelopes azuis pintalgados de letras azul escuro te chegaram às mãos todos os dias do resto da tua vida naquele pedaço de tempo que se fechou por trás daquela construção de onde apenas ouvias o mar, sem que o pudesses ver e desfrutar. Agora que és quase livre como o mar, estás quase solto como o rio, que já podes navegar na tua semi liberdade, concedida por pessoas que não te sabem a cor dos olhos e o cheiro da alma, descubro-te afinal, novo e recém nascido. Diferente daquilo que te sonhava. Sim, porque apenas te sonhei nestes longos dias de pura invernia em que te viste afastado dos teus amores – onde eu não me contei, quase nunca – e fizeste de camas alheias o teu melhor leito. Esta tem de ser a minha última carta para ti. Não te chegará às mãos, porque nunca as soubeste ler, tal como nunca me soubeste salvar da torre mais alta em que me encontro, quase, enclausurada. Porque não me soubeste medir, constante, presente na tua sombra. E quando te viste livre das camas alheias, dos muros altos, das divisões permanentes e das contagens frequentes não me soubeste dar a tua mão e afagar-me a minha pelo tempo que te esperei. E eu fiquei desolada, porque aquilo que sempre adivinhei debaixo da tua pele e no teu olhar vago, nos teus silêncios cortantes e nas tuas ausências, nas tuas faltas de audição e nas nossas faltas de resposta, afinal não adivinhava, sempre te soube pertença apenas de um mar que te fez navegar para águas profundas onde já nem as sereias te podem salvar de ti próprio, dessa tua solidão cavada pelas tuas próprias mãos. É por isso que tenho de te encerrar e escrever a última carta, mesmo que ainda e depois continues a gritar em mim, permanente e constante, fazer de conta que não te oiço e que não te vejo, porque neste Dezembro frio e com este sol baixo e vagaroso corro o risco de me perder algures na tua busca. E não o posso fazer. Não me posso perder. Pelo menos ainda mais. Não quero perder o sorriso franco e fácil. Não quero perder o calor das mãos e o toque fácil que me caracterizam. Já me bastam os silêncios que me tumultuam. E este é o fim das minhas linhas para quem ainda, lentamente, de tempos a tempos me vem tomar, como se eu ainda te escrevesse diariamente. Mas já não escrevo. E não voltarei a escrever. Para que o riso me continue sempre fácil. E para que a tristeza não me aflore sempre os olhos. Vou crescer. Sem ti, é óbvio. Mas ambos tomámos essa decisão e enveredámos por esse caminho. Largámos tudo o que nos pudesse recordar um do outro e abandonamo-nos num caminho de onde o outro não soubesse sair sozinho. Mas tu sempre foste muito grande e não sabes perder o rumo. Tomaste o azimute da tua vida e partiste. E eu tenho de tomar o meu. Porque aqui o Inverno tornou-se frio e não quero morrer aos teus pés, que já aqui não estão, sozinha. Despeço-me. De ti. De nós. Das poucas noites que passamos juntos. Dos teus braços que me tomaram como tua, em noites de tempestade e calmas de maresia acentuada. De noites de gaivotas gritantes em que me fizeste tão tua. Despeço-me. Despeço-me. Ouviste, não ouviste? Despeço-me. Mas tu não me ouves e eu não te quero a ler-me para que não me leias por dentro também. Mas despeço-me.

19.12.2006

27 dezembro 2006


Não consigo distinguir o inferno encapotado de um céu azul nos teus braços. Eu não consigo antever as dores gastas e usadas, mas sempre tão acutilantes quando estou perdida na tua boca porque estou a vogar no mar azul dos teus olhos e sei que era ali que me queria permanecer. Nos teus braços, protegida, a navegar no teu olhar. E tentar alcançar aquele pedaço que nunca deste. E que sei tão meu.

Foi por isso que nunca o deste. Mas não me reconheceste. Senão tê-lo-ias dado…

19.12.2006

Como tu deverias ver-me no auge do teu Amor:


Quando nós fazemos amor, sentes-me no espelho da tua alma? E sabes como, naquela hora, és igual a mim? E como, naquele momento, somos apenas um no respirar, e, no sentir, e, no amar um do outro? E quando estás só e eu te deixo ir, pela vida fora, a sonhar como se não tivesses a certeza daquilo que queres. Eu não te quero amar toda, pela certeza. Porque sei que tu és louca e não me és fiel, nem serás para sempre minha. E sabes como o amor é e eu não quero estar perto de ti quando tu decidires partir e quebrar-me o fio da vitória de te ter. O amor morre. Morre todos os dias, morre um pouco no nosso leito, quando não te encho os pulmões de ar e o fio da navalha nos fica mais estreito. Quando estou contigo sabes que não estou com mais ninguém. E não poderia. E não conseguiria. E tu também não. Mas nem sempre és minha. Quando sais daquele espaço, que é só nosso, sei que não te posso possuir e que deixas de ser só minha. Eu não te quero tocar sequer, aí. Porque sei que te posso quebrar e magoar. O amor é… o amor somos nós quando estamos apenas juntos, sem mais nomes, nem como, nem porquês. Somos apenas nós quando o tempo pára porque é assim que somos um do outro. Apenas um do outro. Quando o tempo pára. Os ponteiros ficam imóveis, estáticos e soltos. E o tempo amansou-se e sei que te posso tocar porque jamais o tempo pára assim para os outros amores. Só não quero estar aqui quando o teu amor se quebrar e se soltar. E eu já não te puder ter. Porque o amor morre. Mas agora amas-me e tocas-me e és minha. Mas quando o amor se quebrar deixarás de ser. Mas hoje, agora, por enquanto o tempo parou e o amor não morreu. És minha.

18.12.2006

25 dezembro 2006


Foi numa mola da roupa que redescobri o teu cheiro. Esta tarde, enquanto me via entre cuecas, meias e collants, assaltaste-me as narinas enchendo-me de novo com o teu odor. E esta tarde transformou-se numa noite, numa daquelas em que via o dia decrescer e aumentar de novo na intensidade e na luminosidade por entre os teus braços, e perdida no teu peito, sorvendo cada gota do teu cheiro, aspirando cada golfada do teu ar, enquanto o teu braço longo se fechava à minha volta e me aproximava de ti para te ouvir o bater do coração. A cama já não gemia. Nem eu. Apenas o teu cheiro ficava intacto no ar. E foi ele que me tomou esta tarde e me levou para aquele apartamento de paredes altas. Para aquela cama em que me fizeste, sempre mais, tua. Para a nossa praia em que os pés ficavas enterrados na areia húmida. E em que o teu cheiro me rodeava e me penetrava a pele. É dele que não consigo fugir. Não é de ti.

18.12.2006

24 dezembro 2006


Este ano o meu Natal não vai ter as nossas risadas. Mas na realidade nunca passei um Natal contigo. Por isso vou lembrar apenas o som da tua voz. A sensação do teu olhar quando te ofereci um postal de Natal, num dia frio de Dezembro.

Este ano vou partilhar o bacalhau, as rabanadas da avó, a minha mousse, as castanhas douradas da mãe, o vinho do meu irmão, e ouvir as gargalhadas das minhas crianças. Ver o Pai Natal entrar pela janela da cozinha, pois será o mais perto que se pode de uma chaminé fingida, gritar em uníssono que já não queremos ouvir os cânticos de Natal do Elvis Presley, e fazer uma manifestação por entre as cadeiras, tropeçando nas prendas contra o abrir as mesmas antes da meia noite. E em cada caixa que fiz este ano, em papel colorido, para oferecer a todos os que fazem parte da minha vida, de alguma forma, umas brancas, contendo o meu Amor, outras vermelhas, cheias da minha Paixão, outras azuis, amontoadas de Saudade, outras verde, latejando de Esperança, não esquecendo as amarelas, que estão a abarrotar de Riso, para cada um dos ocupantes do meu coração, que por ser tão grande e vasto, e, estar tão cheio, mas sempre com lugar para muitos mais, estará sem dúvida, alegre e a bater descompassadamente, esquecendo-se das discussões, das saudades que me desmoronam, dos desentendimentos que tenho com a vida e com as pessoas que fazem parte da minha dita vida, e como esta noite é nossa, só vamos festejar, rir e brincar. Pôr de lado tudo o que me faz mal, e esquecer, mesmo que por momentos, porque vou realizar o que quero. Sem demora, vou levar-vos a todos comigo, para estar na Paz alucinada do meu coração, a ouvir as minhas kisombas, e dançar frenética ao som dos meus sonhos, sem derramar uma única lágrima, embora com as saudades que por vezes me fazem nostálgica.

Afinal tenho muito que amar. E tenho muito para sonhar. E tenho muito para curtir. Esta noite vou estar em Paz. E de mãos dadas contigo no meu coração. Com todos aqueles que me amam e também com todos aqueles que amo.
Em Paz.

O Amor não tem que ser apenas uma estória. O Amor são muitas e grandes estórias, por vezes não encadeadas no tempo, no espaço e aqui neste lugar que chamo de casa.

E hoje tenho aqui outros Amores, não menos importantes na minha vida. E estarei em Paz.
24.12.2006

23 dezembro 2006


Acabarei por partir, sabes? Acabarei por me fartar de não ser nada nem ninguém e invisível aos teus olhos e principalmente para os teus olhos. Tu sabes que eu estou sempre aqui, e sempre te tem sido possível abraçar-me quando queres. E que sempre tenho estado aqui para te mostrar que és muito, muito mais do que o mundo tantas vezes te disse seres. Mas um dia, qualquer dia, acordo cheia de sol, porque ele nasce também para mim, e, acabarei por sair do teu lado. Tu conheces-me melhor que todos, e melhor do que queres fazer parecer. E sabes que vai ser assim. E será que não é isso que aguardas? O dia em que me vês, também eu, crescer, em asas e tamanho e fazer-me ao mundo, calcorreando-o, descobrindo-o, e, fazê-lo também mais meu, conquistando-o? Acabarei por partir, eu sei-o, tu sabe-lo. Ambos o sabemos. Mas hoje, tu fazes de conta apenas que não me vês, e eu faço de conta que te sou invisível aos olhos, e hoje ambos fazemos de conta que as nossas presenças são quase tão transparentes e que não damos um pelo outro. Mas o tempo, aquele sábio conselheiro que tudo nos faz esquecer, atenuar, esmorecer, decrescer deu-nos o tempo de também amadurecer.

18.12.2006
(foto de Eduardo Costa Freitas)

22 dezembro 2006

Rosa Principe Negro


Está frio lá fora. Sabes que tenho medo do frio. Gosto dele. Mas tenho-lhe medo. Medo de que não volte inteira, medo de que as memórias se me congelem numa parte que se me fique afogada num pedaço de gelo da minha memória. E a memória das tuas mãos, brancas, a pulsar de vida, que eu tantas vezes cartografei pelas veias azuis, grossas, e que tanto me afagaram em noites de gritos, e mais ainda, em noites soltas de risadas apenas partilhadas por nós. Os teus olhos azuis de céu que tanto me indicaram o lugar do sonho, os lugares de mar cheios de calmaria, os pedaços de vida que me mereciam continuar a ter, e aqueles que me mereciam o abandono. Já não te tenho presente. Estás ausente, e cada vez mais distante. Já não consigo ver-te sempre que fecho os olhos, no sorriso largo e franco, já não te oiço, audível, na gargalhada cheia. Ficas, com o passar dos anos, mais ténue, mais esbatido, como as fotos amarelecidas em que ainda te mostras jovem e sem rugas. Não voltei a ouvir por entre os teus risos e olhares cúmplices, baixinho, o teu sussurro, a assobiar-me ao ouvido, que vou conseguir. Não mo voltaste a dizer tu… nem mais ninguém.

Achas que conseguirei?

16.12.2006
(Avô, tenho tantas saudades tuas...)

21 dezembro 2006


No silêncio dos nossos corpos amaste-me. E eu deixei-me amar por ti. Encher-me da tua boca, da tua língua, sabendo de antemão que era passageira. Que acabarias por ir embora e que eu voltaria a ficar só. Sem o teu corpo e sem a tua mão e sem o teu abraço. E que voltaria a este estado vegetativo. Mas não te pedi para ficares. Nem para regressares. Porque sabia que não valia a pena. A verdade é só uma. E tal como eu sou uma mulher de muitas caras tu és um homem de muitos caminhos. E as minhas caras e os teus caminhos cruzaram-se poucas vezes na vida. Não as suficientes para que o teu rio viesse desaguar no meu mar. Para que as tuas águas viessem molhar a minha areia. Já não sinto a tua mão no meu corpo. Os teus dedos longos no meu pescoço. Mas ainda não te esqueci.

16.12.2006

20 dezembro 2006


Prefiro que não, amada.

Para que nada nos amarre
e que nada nos una.

Nem a palavra que aromou tua boca,
nem o que não disseram as palavras.

Nem a festa de amor que não tivemos,
nem teus soluços perto da janela.

Amo o amor dos marinheiros
que beijam e se vão.

Deixam uma promessa.
Não voltam nunca mais.

Em cada porto uma mulher espera:
os marinheiros que beijam e se vão.

Uma noite se deitam com a morte
no leito do mar.

In "Crepusculario" de Pablo Neruda

No silêncio das nossas bocas nem sequer sabes bem o que significa desculpa. Nunca soubeste. Essa palavra sai-te da boca como uma registadora a debitar números que a enchem ou esvaziam. A ti, ela não te faz rigorosamente nada. Não te dói todas as vezes que a dizes, que magoas por teres de a dizer, pelo gesto que a provocou. Agora então, ela nem sequer te aflora os lábios. Sinal de que nem dás pelas vezes, frequentes, demasiado frequentes, em que magoas os que te rodeiam. Não sabes o que significa a palavra desculpa. Para ti não passa de uma palavra. Uma palavra destituída de sentido e de gestos e de sentimentos. É por isso, também, que a distancia entre nós os dois é cada vez maior. A linha imaginária na cama passou a ser um muro. E qualquer dia será apenas arame farpado electrificado. Porque tu não sabes o que significa a palavra desculpa.

15.12.2006

(foto de Eduardo Costa Freitas)

19 dezembro 2006

Rapariguinha Gorda de Sonhos Leves


Seria um perpétuo combate,
seria uma máquina de Amor,
a rapariguinha gorda
de sonhos leves -
Ela, como rolava nos sótãos,
com armadas de anjos
perdidos & achados.
E seus corações eram de tanto
a chuva
que mais não teriam a fúria
de outra vez beijar o sol.
A rapariguinha gorda
de sonhos emprestados
vencia-lhes batalhas de Verão,
com restos de amor
nos lábios,
e o céu na palma da mão.

In " A Oeste deste Céu" de João de Mancelos


Dar-me sem te receber em troca. Dar-me sem que te tenha, ainda assim, por entre os meus braços, e, as minhas pernas. Dar-te o que, ainda, tenho. Apenas o meu amor. Se te servir de alguma coisa. Aproveita-o. Usa-o. Mas depois não o deites fora. Guarda-o bem junto do teu coração, mesmo que seja num canto escondido de todos e de tudo. Um canto onde só tu saibas que lá estou. Que eu lá existo. E que não me esqueças. Mesmo quando já ninguém, nem nada, me souber, quando não for nada para mais ninguém. Apenas tu, só tu, me vais recordar ainda.

8.12.2006

18 dezembro 2006


Se tu fosses o meu mar. Se tu fosses o meu céu. Se tu fosses o meu bando de pássaros, livres a voar. Se tu fosses a minha matilha de lobos soltos a correr. Se tu fosses o meu cardume de peixes a navegar por entre as águas. Eu seria a tua praia. Eu seria o teu sol e a tua lua. Eu seria as tuas penas. Eu seria o teu vento e a tua terra. Eu seria a tua corrente marítima.

Só tu e eu saberíamos. Secretamente entre nós. Por entre nós.

7.12.2006

17 dezembro 2006


Já não estou aqui junto de ti. Já não sou a menina que conquistaste para possuíres por dentro dos teus braços e nos teus lençóis. Agora sou a menina, já quase mulher, que se julga ainda menina. Mas já não me quero por entre os teus braços. E muito menos por entre os teus lençóis. A distância que nos separa, mesmo lado a lado é tanta e tão grande que me faz faltar o ar para te tocar. E nem o quero fazer. Parece que estou ali ao teu lado como o céu parece tocar no mar lá ao fundo no horizonte. Mas a distância entre ambos é tão grande lá como entre nós. Só parece. Não é. Já não te conheço. Já não te tenho tal como tu não me tens. Nem estou aqui presente, de coração e alma. Apenas o meu corpo inanimado. Solto e desfalecido. O meu olhar pára apenas num qualquer ponto no céu a vogar numa nuvem ou numa estrela que me leva à ilusão. Que não és tu. Mas quem me faz doer ainda o estômago? Quem me faz ainda tremer as pernas? Já não me recordo de o fazeres. Em ti apenas sinto uma enorme tristeza por partilhar e por dar aquilo que não soubeste acarinhar. O meu corpo está desfalecido. Morto para ti. Só frio. E nos nossos mundos uma distancia tão demasiado grande e dispare. Não me consegues tocar É verdade. Nem quero que o faças. Já não me tens. Já não me magoas, sequer. Quebrou-se-me o céu da boca pelas palavras que não disse. Mas o pior é estar a quebrar-me o céu do coração por não ter com quem o partilhar. Não consigo chegar a ti. Não a ti, que estás ao meu lado. A ti que estás no céu do meu coração. No mar que o inunda. Na solidão que te permanece. É a ti que quero chegar. É a ti que quero dar a mão. Agora esta noite. Enquanto a chuva bate na janela do meu quarto solitário e vazio de ti e cheio de nada de mim.

7.12.2006

16 dezembro 2006


Engana-me. Mente-me. Mas diz-me ao ouvido que hoje sou tua. E que hoje precisas de mim. Que esta noite precisas do meu calor para sobreviveres. Faz-me, deixa-me sentir importante para ti.

Amanhã estarei inteira de novo.

8.12.2006

15 dezembro 2006


Hoje estou negra como o dia. Solitária como o rio que também furiosamente procura uma saída para as suas águas. Hoje. Só hoje, não me deixes afogar na solidão tão premente em mim. Hoje. Estou como a chuva lá fora a bater na janela, furiosa. Demasiado barulho para os meus neurónios cansados e dormentes por pensar demais em ti. Na tua chegada, que não acontece. Estou a sentir-me apenas muito sozinha. E sem dono. E sem nada. E abandonada. E sei que vou sobreviver mais esta noite. E também ao próximo dia. E qualquer dia volto a sorrir. Mas esta dor hoje é simples. E sem mácula, destrói-me.

8.12.2006

14 dezembro 2006


Sinto-me furiosamente mansa. Sei que não parece uma conjugação correcta de ambas as palavras. Mas é assim que me sinto. Começo a aceitar que não terei tudo o que amo. Já aceitei como facto previsto que não terei tudo o que amo ou pretendo amar. Que todo este amor furioso que me enche a alma, a vida, o corpo e a mente se perderão algures numa terra árida, num caminho para o qual apenas eu conhecerei as indicações. E em todas as curvas e derrapagens, alucinações e regressos, solidões e fingimentos acabarei por me perder de tudo o que apenas tive em mim, puro e em marfim. A tua imagem. A do amor mais puro que trago em mim.

03.12.2006

13 dezembro 2006

Tenho sonhado incessantemente com o nosso encontro. Mas sei de antemão que nada será como previ. Pois eu não tenho uma bola de cristal. E as minhas cartas estão guardadas no fundo da gaveta. Os meus sonhos não têm sido premonitórios para mim. Apenas antevejo o sofrimento ou os sorrisos dos outros. Nunca os meus. Os sonhos sem significados não têm cavalos, nem nada que supersticiosamente me possam realmente indicar que vens a caminho. Por isso basta-me fechar os olhos e fingir que estás aqui. Mas não estás. E em dias como este, em que não me basta fechar os olhos, e que não me basta a ternura que me detém perante o salto no vazio da solidão permanente, nestes dias, tão cheios de vazios, que também enchem em demasia, não me basto de nada. Sou rainha de um trono vazio de mim. Sou capitã de uma nau à deriva num mar vazio de ti. Sem cabo de Boa Esperança à vista. Sem novas terras, nem novos mares à minha espera para nos descobrirem enredados um no outro. E nestes dias assim nada é como sonho. Nada é como espero. Já nada é na minha vida como apenas sonhar fugir da solidão tão cutânea, e perder-me nos enleios olfactivos de quem te descobriu no mar ou no vento. Porque nestes dias assim nem a maresia te traz perdido no mar para que te possa perceber.

3.12.2006

10 dezembro 2006


Aprendi a beber. Aprendi a apreciar um copo de vinho tinto. E quando o estou a saborear, quando a conversa vai fluindo à minha volta, pois nunca bebo só, para não me aumentar a solidão, desço o meu olhar e mergulho-o nos milhares de gotas escuras no fundo do meu copo. E sonho-te, em silêncio, ao som do mar que oiço no meu pensamento constantemente, que os teus olhos se vão submergir em mim quando me alcançares com a vista pela primeira vez. E a partilha vai ser tal, que vais perder o chão onde andas, pelas pernas que te tremem e vais ficar sem fôlego, sem o ar com o qual respiras, vais ficar com o estômago enrolado porque percebes que não viveste até ali. E a partilha será tanta e de tal forma prazenteira que as regras de prudência serão deitadas fora, e vamos entrar numa clandestinidade que de tão intima só poderá ser nossa. Aí nesse recanto, onde só as nossas narinas se reconhecerão pelo cheiro, ambos nos entregaremos sem palavras e em gestos de doação. Momentos perfeitos.

2.12.2006

09 dezembro 2006


Esta noite adormeci com a lua meia cheia a olhar por mim. Lá estava ela a espreitar no meio da minha janela totalmente aberta atravessando os vidros para me iluminar na escuridão da cama. Deitada precisamente ao meio da cama para me aperceber se chegasses e te deitasses ao meu lado. De braços abertos para te receber. Mas nesta noite de quase muito luar não chegaste. Ainda não foi luar suficiente para te indicar o caminho até mim. Aguardo. Sem os teus braços para me enlaçares.

30.11.2006