
Hoje seria apenas um daqueles dias, daquelas horas em que me gostaria de transformar num ser pequenino e invisível, para recomeçar uma caminhada interrompida. Encontrar uma praia, uma que não fosse a nossa, e divagar, deambular, pondo o pensamento no sítio certo e o coração do lado correcto. Enrijecer a musculatura de todo o meu corpo, pondo-a nos sítios apropriados e fazendo os desvios necessários para que o sangue me fizesse viver, mas não reviver em ti. E depois, quando estivesse nada mais que exausta, tão exausta que me seria impossível sequer pedir à minha mais santa de devoção, ajuda para não me perder de mim própria outra vez, e cansada o suficiente para que apenas o repouso simples e imediato, o esvaziar até do silêncio na minha mente, demasiado nebulosa por estes dias, nada mais que isso, e, que me fosses imprescindível, e aí, nesse segundo, sem pensar duas vezes e sem olhar para trás, descobriria um buraco demasiado profundo e demasiado longe de tudo e de todos, numa noite demasiado profunda e escura para te enterrar bem fundo, fundo o suficiente para não te voltar a encontrar nem tão pouco te seguir os sinais para o tentar fazer. E aí enterraria, juntamente contigo, todos os sabores dos teus lábios e dos teus beijos, todos os odores do teu corpo, o da manhã, o da noite, o de quando bebes, o de quando não bebes, o de quando fumas o cigarro fresco, o da pasta de dentes, o do sabonete de mel, o do perfume e até o do simples odor simples da tua pele. Enterraria também o teu mar azul com que me olhas cada vez mais friamente, e acima de tudo era lá que ficaria a distancia que existe, cada vez maior, entre nós, na cama, entre os nossos corpos, quase adormecidos, mas suficientemente alertas para evitar qualquer contacto, desejosos e desesperantes pelo desaparecimento do outro, do espaço livre e visível à sua volta, na mesa, em que não cruzamos um único olhar, nem sequer de desprezo, e, até no carro, que qualquer roçar de mãos é abrasador, cheio de raiva e diria até de repulsa.
Se andar o suficiente para extenuar o meu corpo e a minha mente será que te conseguirei abandonar como tu me abandonaste a mim há muito tempo atrás?
17.05.2007