14 maio 2007


Gosto de te olhar. Gosto de ficar deitada ao teu lado a respirar o ar que exalas enquanto dormes e cheirar-te e sentir-te o sono, pesando-o por entre as mãos e por entre as pernas, protegendo-te dos sons, respirando silenciosamente – e, também mais baixo que o costume – para não te invadir os sonhos e o sono. E nessa altura és quase meu. Apenas quase só meu. Posso abraçar-te e fingir que te ponho a mão debaixo da camisola, ali mesmo por cima do coração, e, que te tenho a bater-me por entre os dedos. E sinto-te frágil, numa fragilidade que no fundo sei não ser tua (nem minha), apenas inventada – por mim – para que sejas um bocadinho mais meu nestes segundos que te prolongo (meu) fingindo que se te amar o suficiente tu também (me) vais amar. Sabes que te carrego enlevado nos braços, adornado de nuvens brancas como se de um anjo de asas – quebradas e renegado –, te tratasses. Mas sabes que mesmo que não me deixes entrar num paraíso que sei existir entre os teus braços e no teu coração, para alguns, ainda assim não deixo de te ver assim – da forma que te sonho. E mesmo quando te transformas num anjo, mais tenebroso, ainda assim, não te deixo e fico-te a embalar, aguardando que a tua forma amorosa regresse. Mesmo que ela seja apenas uma miragem por vezes. Mas és a minha miragem. Porque deves sempre saber que pela importância que tens para mim e na minha vida, sempre que estiveres só eu estarei ao teu lado. E sempre que tiveres frio eu estarei por perto para te agasalhar. E sempre que tiveres fome de Amor eu estarei nas redondezas para te amansar o coração nem que seja com um amor fingido para mim, mascarado de outras para ti. Mas estarei sempre por perto. Porque quando dormes nos meus braços, ou simplesmente ao lado deles, posso fingir-te meu.

11.05.2007

4 comentários:

alexandre disse...

Fernando Pessoa diz:
_"...o poeta é um fingidor,finge tão completamente que chega a fingir que é dôr a dôr que deveras sente..."

num sonho em que somos o que já fomos,por não sermos aquilo que sonhamos?
...porque se sonhamos de facto,somos?

JotaCê Carranca disse...

Quem me dera um dia poder escrever assim.
Te prometo que vou aprender

algevo disse...

Alexandre,

Se sonhamos pelo menos parte disso somos. Ou anseamos ser. Isso já faz parte do ser. Daquilo que queremos ser. E seremos, mas sempre mudando, porque o ser humano é isso mesmo. Sempre em mutação.

;)

I.

algevo disse...

Meu queridíssimo (muito mesmo) Jota,

Pois olha que eu todos os dias fico a pensar, a sentir as tuas palavras, cheias de tantos sentimentos ambíguos, e, penso, todos os dias da minha vida - exceptuando aqueles, raros, em que te dá a preguiça, precisamente o inverso do que me dizes. Pois eu gostaria de pôr (sabendo) em palavras os sentimentos tal como tu.

Continua a escrever assim mesmo, mesmo..., da forma que o fazes... com o coração ligado à boca.

Promete-me antes que te mantêns assim sonhador e incansavelmente lutador.

Beijos, muitos beijos.

I.