22 dezembro 2006

Rosa Principe Negro


Está frio lá fora. Sabes que tenho medo do frio. Gosto dele. Mas tenho-lhe medo. Medo de que não volte inteira, medo de que as memórias se me congelem numa parte que se me fique afogada num pedaço de gelo da minha memória. E a memória das tuas mãos, brancas, a pulsar de vida, que eu tantas vezes cartografei pelas veias azuis, grossas, e que tanto me afagaram em noites de gritos, e mais ainda, em noites soltas de risadas apenas partilhadas por nós. Os teus olhos azuis de céu que tanto me indicaram o lugar do sonho, os lugares de mar cheios de calmaria, os pedaços de vida que me mereciam continuar a ter, e aqueles que me mereciam o abandono. Já não te tenho presente. Estás ausente, e cada vez mais distante. Já não consigo ver-te sempre que fecho os olhos, no sorriso largo e franco, já não te oiço, audível, na gargalhada cheia. Ficas, com o passar dos anos, mais ténue, mais esbatido, como as fotos amarelecidas em que ainda te mostras jovem e sem rugas. Não voltei a ouvir por entre os teus risos e olhares cúmplices, baixinho, o teu sussurro, a assobiar-me ao ouvido, que vou conseguir. Não mo voltaste a dizer tu… nem mais ninguém.

Achas que conseguirei?

16.12.2006
(Avô, tenho tantas saudades tuas...)

10 comentários:

joão marinheiro disse...

- Verdadeiramente acho!

Sabes que o amor nos fortalece, mesmo um amor ausente, como eu sempre o escrevo, mesmo esse nos ensina a ser preserverantes, a olhar com outro olhar, a desejar com outro desejo. A paixão em nós deixa de ser uma paixão edílica, mas uma paixão curtida pelas saudades. Os beijos que não se dão já, perduram como marcas indeléveis em nós, num lugar secreto. O tempo outro aliado das saudades e da ausência, é um lenitivo, uma espécie de calmante natural que se entranha em nós até chegarmos a um lugar estranho das memórias, um lugar onde nos sentamos a olhar e nos interrogamos, se tudo foi verdade, se tudo não passou de um sonho, porque diluído na distância tudo se torna já disforme, e, o rosto preciso, as tais mãos, a tal voz, o tal olhar, é já em nós uma espécie de véu, de vidro fosco em contra luz, temos uma certeza. Existiu em nós, mas agora no tempo presente e no próximo que se avizinha aquilo que vemos aquilo que sentimos aquilo que queremos aquilo que sonhamos, não é o que foi, não pode ser o que foi, jamais irá ser o que foi, porque se perdeu já. Restam-nos as palavras a evocar a saudade, as palavras a evocar cada pedaço de corpo, cada risada que entra em nós como um eco imenso, que nos estremece.
Restam-nos restos…
Escombros da memória, e nós que nos reconstruímos diariamente emergindo desses escombros somos os verdadeiros heróis.

- Os sobreviventes do amor!

Beijo minha querida amiga.

JotaCê Carranca disse...

Claro que vais conseguir
Votos de Feliz Natal e Póspero Ano de 2007 à autora deste blog, assim como a todos os que aqui vão passando

rouxinol de Bernardim disse...

Feliz Natal!

Visita-me e deixa-te surpreender... pela positiva... espero eu!

2007 cheio de criatividade!!!

algevo disse...

João,

Ainda não te vou responder... ainda tenho de digerir as tuas palavras (que muito bem me fizeram) e, como mereces uma respota à altura, deixarei para mais tarde a tua verdadeira resposta.

E olha em frente. Temos de estar atentos à estrada. Se assim não for, corremos o risco de passar em branco algum caminho, pleo qual, deveriamos, indubitavelmente, ter seguido.

Beijo daqui de onde o rio se junta com o oceano e até já, breve.

I.

algevo disse...

Jota,

meu querido e lindo jota... as tuas palavras fizeram-me voltar tantas vezes a uma infancia escondida por entre tantos escombros... memórias de sentimentos e de sensações que já não sentia desde que não me lembrava do lado bom destes passados que cheiram a um pretérito demasiado longínquo.

Mas... e não só.

Espero que tenhas reconhecido o meu mail de boas festas...


O B R I G A D O

(consigo se tiver com quem partilhar e valer mesmo a pena...)

A autora do blog agradece e os que por aqui passam também....

Beijos e mais beijos

I.

PS: fico mesmo zangada cada vez que tento postar comentários no teu blog...

algevo disse...

rouxinol,

visitei-te, e fiquei surpreendida pela positiva - como não poderia deixar de ser - lamentando apenas o facto de não se poder comentar... regressarei agora, assiduamente, ao teu espaço o qual recomendo vivamente.

Feliz Natal e um 2007 cheio de criatividade também para ti.

Beijos

I.

algevo disse...

jota,

(agora uma pitadinha de humor, que eu por vezes tenho a mania que tenho graça...)

que é isso de utilizar o meu blog para desejar as boas festas aos que não se manifestam??? Faz favor de me desejar a mim, só e apenas....os outros que se manifestem... ora essa, a quererem tirar-me o poleiro...

Beijos....

I.

PS: Um cavalheiro... é sempre um cavalheiro, já percebi...

algevo disse...

joão,

nesta época natalicia, em que supostamente as pessoas estão mais sensiveis, mais atentas umas às outras, damos mais importancia às palavras. e alguns também aos sentimentos. depois de longa reflexão - que não foi assim tão longa pela falta de coordenação motora que demonstro ao não por maiusculas, nem acentos... - decidi dizer-te, não algo que tu não saibas, mas sim algo que sinto e que sei, tenho a certeza, me irás compreender. A saudade, neste caso das pessoas que já não fazem parte das nossas vidas, umas por escolhas próprias, outras porque o seu ciclo terminou, não se dilue com o tempo. Pelo menos para mim. Tenho dias em que quase me esqueço, é verdade, e não fosse ter sido uma pessoa que me ajudou a ser quem sou e que me tivesse marcado quase sempre de forma tão positiva ao longo de 30 anos da minha existência, e que o continuará a fazer, mesmo não estando presente fisicamente, talvez não fosse uma saudade tão latente. Mas é. E como cresci a sentir que ali era também um porto seguro por vários motivos, pelos ensinamentos, pelo carinho, pelas direcções indicadas, por todas as vezes em que o olhar de céu azul limpido poisou em mim e eu lhe soube um sorriso só meu, não me tivesse e não custasse tanto por vezes, ainda, a falta que lhe sinto. E que vou sempre sentir. Não duvido que tudo foi verdade, e o tempo, o tal lenitivo de que falas, nem sempre assim funciona, por vezes tem até o efeito contrário, não o tendo sempre...
e embora muita coisa se tenha tornado fosca, com o passar do tempo, existem memórias que não me podem ser retiradas. E dessas sim, tenho dúvidas que exista alguém que se possa algum dia equiparar. E é nesta busca incessante de uma sombra que se assemelhe que me perco tantas vezes. E é aí que sem dúvidas ainda lhe sinto mais a falta para me ajudar a destrinçar os caminhos, pela sabedoria ou apenas pelo instinto de quem já viveu muito e de quem amou sempre.

Duvido muitas vezes que seja uma heroína. Mas depois olho para trás. E vejo tanta coisa e penso que sim. Que o sou. E que um dia poderei contar estórias fantasticas aos meus filhos, de aventuras e de lembranças, de sentimentos e de recomeços.

Neste amor não houve sobrevivientes. Restei apenas eu. E muitas vezes duvido sim, da existência de tamanho sentimento, porque a passagem do tempo, tem também a tendencia de atenuar as más e sobrevalorizar as coisas boas.

E tudo o que poderia ter sido não foi perdido. Guardei num pedaço de memória inviolável, a quem raramente dou ordem de abertura, para não chorar mais lágrimas porque o tempo não volta atrás.

Por mais que vos ame, a todos os meus amigos, a todas as pessoas a quem me importa a opinião, não será definitivamente a mesma coisa que aquela opinião. Mas hoje acabei por concluir, que se eu sorrir, se o meu coração saltar de alegria, sem dúvidas que um olhar azul de céu calmo estará poisado em mim.

E agora com um sorriso, para ti, e para todos aqueles que me acham capaz, um beijo daqui, de onde o rio se junta com o oceano.

Iolanda.

algevo disse...

Jota: gostei do meu mail... de boas festas SÓ, SÓ para mim...

Obrigada...(nunca é demais dizer...)

Beijos e beijos.

algevo disse...

João, tens razão... é gigante... não sei como me gramas...a escrever desta maneira (só nos comentários) ainda vou parar ao guiness...

Beijos daqui de onde o rio se junta com o oceano.

I.